A qualidade da nossa presença transforma a qualidade das nossas relações
Por Rosângela Ferreira
Vivemos em uma sociedade que busca respostas simples para questões profundamente complexas. Mas, como nos ensina Edgar Morin, compreender o ser humano exige algo mais: reconhecer a complexidade que constitui cada história, cada vínculo, cada forma singular de existir.
Em qualquer espaço que ocupamos seja na família, trabalho, liderança, comunidade, vida afetiva existe a possibilidade de construir relações mais saudáveis. Mas essa construção não nasce do cargo que ocupamos ou da autoridade que possuímos. Nasce, fundamentalmente, da qualidade da nossa presença.
Presença não é apenas estar Presença não é apenas estar fisicamente em um lugar. É estar verdadeiramente disponível: para reconhecer as próprias emoções, regular as respostas diante dos desafios, comunicar-se com autenticidade, estabelecer limites saudáveis, agir com compaixão e permanecer conectado à própria essência. É, em suma, estar em casa em si mesmo.
Essa, porém, não é uma habilidade que aprendemos naturalmente. Muitos de nós crescemos em contextos em que precisaram silenciar necessidades, controlar emoções ou ultrapassar os próprios limites para serem vistos, reconhecidos e amados. E é aqui que diferentes saberes convergem para explicar o que essas experiências produzem em nós marcas que carregamos sem sempre compreender sua origem.
A Psicanálise, desde Freud e Winnicott, revelou que essas vivências deixam cicatrizes profundas no psiquismo. A Neurociência, com Damásio e Porges, mostrou que elas moldam o cérebro e os sistemas envolvidos na regulação emocional. A Teoria do Apego, inaugurada por John Bowlby e ampliada por Mary Ainsworth, demonstrou que nossas primeiras relações influenciam como confiamos, pertencemos e construímos intimidade. E a Visão Sistêmica, inspirada em Hellinger, amplia esse olhar ao revelar que carregamos lealdades, histórias e padrões que atravessam gerações, herdados de forma invisível.
Gabor Maté acrescenta algo essencial: muitos dos nossos "sintomas" foram, um dia, estratégias inteligentes de adaptação. Formas que encontramos, ainda crianças, para sobreviver a contextos que não podíamos escolher. Ele nos convida a uma pergunta radicalmente diferente: não "o que há de errado com você?", mas "o que aconteceu com você?". Essa mudança de perspectiva é libertadora.
Bessel van der Kolk aprofunda essa compreensão de forma visceral: o trauma não é apenas memória. É uma experiência registrada no corpo, na respiração, na postura, na capacidade de sentir segurança e de nos conectar. Por isso, curar não é apenas lembrar ou entender intelectualmente. É restaurar a presença e a segurança no próprio corpo, devolvendo-lhe a confiança de que está seguro agora.
Aquilo que um dia garantiu nossa sobrevivência emocional pode, na vida adulta, tornar-se um obstáculo para relações mais saudáveis. Estabelecer limites, pedir ajuda, confiar ou sustentar a própria autenticidade nem sempre é uma simples decisão. Muitas vezes, é um profundo processo de reconstrução e isso é importante reconhecer.
É aqui que o pensamento complexo de Morin nos convida a abandonar explicações reducionistas. Não somos apenas nossa infância, nem apenas nosso cérebro, nossos traumas ou nossas circunstâncias. Somos a interação contínua entre biologia, história, relações, cultura, valores e nossa capacidade de atribuir novos significados à experiência. Somos, em última análise, seres em permanente transformação.
Na minha prática clínica, encontro diariamente pessoas que desejam transformar seus relacionamentos. Com o tempo, descobrem algo que muda tudo: essa transformação não começa lá fora. Começa em um lugar mais profundo, ou serja, na reconstrução da relação consigo mesmas.
Quando ampliamos a consciência sobre nossos padrões emocionais, compreendemos a origem de muitas reações que pareciam automáticas. Desenvolvemos maior autorregulação. Deixamos de responder mecanicamente às antigas estratégias de sobrevivência. E, de repente, abrimos espaço para escolhas mais livres, relações mais autênticas e uma vida mais coerente com quem realmente somos.
A Ciência do Florescimento Humano, desenvolvida por Martin Seligman e Carol Ryff, nos convida a compreender que saúde não é ausência de sofrimento. É a capacidade de cultivar relações significativas, encontrar sentido, fortalecer recursos internos e viver alinhado aos próprios valores, mesmo diante das adversidades inevitáveis da vida.
Florescer não significa nunca ter sido ferido. Significa desenvolver a capacidade de integrar nossa história sem permanecer aprisionado a ela. É a diferença entre ser vítima da própria vida e ser autor dela.
Como lembra Morin, a complexidade não elimina a simplicidade; ela a integra. Compreender quem somos não é encontrar uma única resposta para nossa existência. É aprender a integrar as múltiplas dimensões que nos constituem o que fomos, o que sofremos, o que desejamos ser. Talvez a verdadeira transformação não aconteça quando esperamos que o outro mude. Acontece quando nos permitimos compreender, com coragem e compaixão, a nossa própria história.
Convite à reflexão:
Quem tem ocupado os espaços da sua vida: a sua essência ou as estratégias que um dia foram necessárias para garantir pertencimento, reconhecimento e amor?
O que, na sua história, ainda pede acolhimento para que você possa construir relações mais livres, seguras e saudáveis, começando pela relação que cultiva consigo mesmo?
Se, como nos ensina Gabor Maté, suas respostas mais difíceis foram formas de proteção, o que elas estavam tentando preservar em você?
E se, como mostra Bessel van der Kolk, o que você viveu ainda mora no seu corpo, que lugar seguro você pode começar a construir hoje para se sentir presente e em casa em si mesmo?
Na minha compreensão cuidar do ser humano é reconhecer sua complexidade e integrar diferentes saberes para compreender, com mais profundidade, o sofrimento e as possibilidades de florescimento.

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