Entre o que aprendi a ser e o que desejo me tornar
Quando antigas crenças encontram novos desejos, abre-se um espaço para escolher quem podemos ser.
Por Rosângela Ferreira
Há momentos em que desejamos profundamente alguma coisa, mas, ainda assim, parece existir dentro de nós uma força silenciosa que nos impede de caminhar em sua direção.
Queremos amar, mas tememos nos entregar. Desejamos prosperar, mas sentimos culpa quando recebemos. Queremos mudar, mas permanecemos fiéis ao conhecido. Sonhamos com liberdade, mas carregamos crenças que nos dizem que é preciso agradar, suportar, cuidar de todos ou não decepcionar ninguém.
Talvez uma das perguntas mais importantes que possamos fazer a nós mesmos seja: O que eu desejo de verdade e o que, dentro de mim, aprendi que era possível desejar?
Nossas crenças não nascem prontas. Elas vão sendo construídas nas experiências, nos vínculos, na cultura, na família, nas perdas, nos encontros e também nas interpretações que fazemos daquilo que vivemos.
Algumas foram necessárias para nos proteger em determinados momentos da vida. Foram respostas inteligentes de um organismo tentando encontrar segurança em meio àquilo que não podia compreender ou controlar. O problema é que uma crença que um dia nos protegeu pode, mais tarde, transformar-se em uma fronteira. E é aí que desejo e crença podem entrar em conflito.
O desejo aponta para o que quer nascer. A crença, muitas vezes, tenta preservar o que já conhecemos. Entre os dois existe uma espécie de território de negociação: nossa história. O cérebro também participa dessa conversa. Ele aprende por repetição, associação e experiência. Aquilo que vivemos muitas vezes ganha força e pode se tornar uma espécie de caminho preferencial. Por isso, mudar não significa simplesmente pensar diferente. Significa criar novas experiências suficientemente significativas para que outras possibilidades possam também se tornar familiares ao nosso sistema.
É nesse espaço que a consciência ganha importância. Não para lutar contra nossas crenças, mas para reconhecê-las. “Isso é realmente uma verdade sobre mim ou é uma verdade que aprendi sobre a vida?”
Essa pergunta pode abrir uma fresta. Porque, quando conseguimos observar uma crença sem sermos completamente governados por ela, começamos a recuperar a liberdade de escolher. O pensamento sistêmico nos lembra que ninguém se constitui sozinho. Somos atravessados por histórias, lealdades, pertencimentos e padrões que muitas vezes ultrapassam nossa experiência individual. Mas reconhecer essas influências não significa permanecer prisioneiro delas. Podemos honrar de onde viemos sem precisar repetir tudo o que recebemos.
E talvez florescer seja justamente isso: não negar nossas raízes, mas permitir que delas surja uma forma própria de existir. O florescimento humano não acontece quando finalmente nos tornamos aquilo que imaginávamos que deveríamos ser.
Acontece quando começamos a construir uma vida suficientemente coerente com aquilo que, em nossa intimidade, reconhecemos como verdadeiro.
Por isso, talvez o caminho não seja perguntar apenas:
“O que eu desejo?” Mas também: “Que crença dentro de mim ainda acredita que eu não posso viver esse desejo?” E, depois: “Que nova experiência preciso me permitir viver para descobrir que talvez seja possível?”
E entre a crença e o desejo existe um espaço precioso: o espaço da consciência. É ali que podemos reconhecer o que recebemos, compreender o que nos protegeu, questionar aquilo que já não nos serve e, pouco a pouco, ampliar o repertório de possibilidades da nossa própria vida.
Talvez amadurecer seja justamente isso: não precisar romper com quem fomos para poder nos tornar quem ainda podemos ser. É permitir que novos desejos encontrem espaço, que antigas crenças sejam revisitadas e que a nossa história deixe de ser apenas aquilo que nos aconteceu para também se tornar matéria-prima daquilo que escolhemos construir. Porque florescer não é abandonar nossas raízes. É dar-lhes um novo sentido e encontrar, a partir delas, uma forma mais inteira de existir.

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