Quando o outro se torna responsável pela nossa falt
Por Rosângela Ferreira
Há dores que não começaram no relacionamento que hoje as revela. Chegamos aos vínculos, muitas vezes, carregando uma dor antiga, a experiência de não ter sido suficientemente visto, acolhido, protegido ou reconhecido. E quando essa ferida encontra o medo primário do abandono, podemos ocupar lugares muito pesados nas relações.
A dor do abandono organiza modos de estar no vínculo. Quando uma experiência primária de desamparo permanece pouco elaborada, buscamos nas relações atuais uma reparação que nenhum outro ser humano é capaz de oferecer integralmente. Esperamos do outro uma presença que nos assegure o tempo todo. Uma confirmação constante de que somos importantes. Uma prova de que não seremos deixados. Um amor que, silenciosamente, consiga preencher aquilo que um dia nos faltou. E talvez seja justamente aí que o amor comece a carregar um peso que não lhe pertence.
Existe uma verdade delicada, mas profundamente libertadora: o outro nunca será suficiente para curar aquilo que nasceu em nós como uma falta. Isso não significa que não precisamos do outro. Precisamos. Somos seres de vínculo. Relações seguras podem nos oferecer novas experiências emocionais, favorecer a confiança, ampliar nossa capacidade de pertencimento e, ao longo do tempo, transformar aquilo que aprendemos sobre nós mesmos e sobre o outro.
O vínculo pode ser reparador. Mas reparação não é dependência. Cuidado não é responsabilização. E amor não é tratamento para todas as nossas faltas. Quando colocamos sobre alguém a tarefa de nos salvar do abandono, o amor deixa de ser encontro e se transforma em vigilância, cobrança, medo. Sem perceber, passamos a ocupar um lugar difícil nas relações: cobramos presença para não sentir a ausência, testamos o amor para ter certeza de que não seremos abandonados, controlamos para sentir segurança ou nos adaptamos excessivamente para não perder o outro.
Por trás de cada um desses movimentos existe uma parte nossa que ainda pergunta: "Você vai ficar?" Talvez o caminho não seja silenciar essa pergunta. Tampouco julgar a parte de nós que ainda sente medo. Talvez seja poder nos aproximar dela com presença e consciência e dizer: "Eu estou aqui. Eu reconheço a sua dor. Eu sei que ela existe. Mas você não precisa mais fazer do outro o responsável por garantir que nunca será abandonado."
Esse é um movimento profundamente terapêutico: reconhecer a própria história, compreender os padrões que ela produziu e assumir, pouco a pouco, a responsabilidade pela elaboração daquilo que ainda dói. Porque o outro pode participar da nossa reparação, mas não pode ser responsabilizado pela nossa cura.
Ele pode caminhar conosco. Pode acolher. Pode amar. Pode oferecer presença, segurança e reciprocidade. Mas há um trabalho que é nosso. Cuidar das nossas faltas. Elaborar nossas dores. Aprender a reconhecer nossos limites e necessidades. Desenvolver recursos internos para não transformar medo em controle, carência em cobrança ou abandono em destino.
E então algo começa a mudar. O outro deixa de ocupar o lugar daquele que precisa preencher o vazio e passa a ser alguém com quem podemos compartilhar a vida a partir de um lugar mais inteiro. Porque amar não é encontrar alguém capaz de curar todas as nossas feridas. É poder encontrar alguém com quem nossas feridas possam existir sem que precisemos transformá-las em responsabilidade dele.
Talvez seja aí que o vínculo se torne mais leve. Mais consciente. Mais livre. Mais possível. E talvez amadurecer seja justamente isso: aprender a permanecer em relação sem abandonar a si mesmo e sem exigir que o outro faça por nós aquilo que somente nós podemos elaborar.

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