Entre cérebro, mente e laço social:personalidade, sofrimento psíquico e os limites do modelo neurológico
- rosangelaferreirap3
- 18 de jan.
- 4 min de leitura
Por Rosânggela Ferreira
A relação entre mente e cérebro ocupa um lugar central na psicopatologia contemporânea e permanece atravessada por tensões epistemológicas que resistem a soluções simplificadoras. Se, por um lado, os avanços da neurociência demonstraram de forma inequívoca que os processos mentais emergem de circuitos cerebrais, por outro, tornou-se igualmente evidente que nem todo sofrimento psíquico pode ser explicado por alterações neurológicas estruturais ou por lesões identificáveis. A clínica psiquiátrica e psicológica situa-se, assim, em um campo intermediário e instável, no qual biologia, experiência subjetiva e laço social se entrelaçam de modo indissociável.
O caso de Phineas Gage, frequentemente evocado como marco fundador da neuropsicologia, permanece emblemático nesse debate. Após sofrer uma lesão extensa no córtex pré-frontal orbitofrontal e ventromedial, Gage apresentou transformações profundas em sua regulação emocional, em seu juízo moral e em seu comportamento social, apesar da preservação de funções cognitivas como linguagem e memória. A partir desse episódio, consolidou-se a ideia de que determinadas dimensões da personalidade dependem da integridade de circuitos cerebrais específicos, oferecendo uma demonstração concreta da relação entre cérebro e comportamento (DAMASIO, 1996).
Entretanto, a extrapolação direta desse modelo lesional para a compreensão das doenças psiquiátricas mostrou-se progressivamente limitada. A maioria dos transtornos mentais como depressão, transtornos de ansiedade, transtornos de personalidade e mesmo quadros psicóticos, não apresenta lesões neurológicas estruturais claramente detectáveis. O que se observa, sobretudo, são alterações funcionais, dinâmicas e contextuais. Estudos em neuroimagem funcional apontam para padrões diferenciados de ativação cerebral, e não para danos fixos ou irreversíveis, reforçando a compreensão de que o sofrimento psíquico não se reduz a uma patologia do cérebro enquanto órgão isolado (KAPUR; PHILLIPS; INSEL, 2012).
É nesse contexto que a personalidade borderline ocupa um lugar privilegiado para pensar os limites do modelo neurológico clássico. Diferentemente do caso de Phineas Gage, não há, aqui, uma lesão adquirida que explique o funcionamento psíquico observado. O que se evidencia é um conjunto de alterações funcionais em sistemas envolvidos na regulação emocional, como a hiperreatividade da amígdala e a menor eficiência do córtex pré-frontal na modulação dos afetos (SCHORE, 2012). Essas alterações, no entanto, não são compreendidas como defeitos congênitos ou danos estruturais, mas como o resultado de trajetórias desenvolvimentais marcadas por trauma relacional, apego inseguro e experiências reiteradas de invalidação emocional — processos que se inscrevem no cérebro por meio da neuroplasticidade.
Do ponto de vista psicanalítico, especialmente na tradição de Otto Kernberg, o funcionamento borderline é concebido como uma organização da personalidade, e não como uma doença neurológica. Trata-se de um modo específico de estruturação psíquica, caracterizado por difusão de identidade, uso predominante de defesas primitivas, instabilidade afetiva e dificuldades persistentes no campo das relações interpessoais (KERNBERG, 2006). O sofrimento, nesse caso, não pode ser localizado em um órgão ou circuito isolado, mas emerge na interseção entre o mundo interno e o campo relacional.
Essa distinção é fundamental para evitar reducionismos biologicistas. Embora toda experiência mental possua um correlato cerebral, nem toda doença mental implica uma incapacidade neurológica, assim como nem todo sofrimento psíquico compromete, de forma automática, a capacidade do sujeito de responder socialmente. Muitos indivíduos com transtornos psiquiátricos mantêm níveis significativos de funcionalidade ética, profissional e relacional, ainda que convivam com intenso sofrimento interno. A doença mental, nesse sentido, não se define apenas por alterações neurofuncionais, mas pela forma como o sujeito consegue ou não simbolizar, regular e compartilhar sua experiência no laço social.
A psiquiatria contemporânea, ao dialogar de modo mais consistente com a psicanálise e com a neurociência do desenvolvimento, reconhece cada vez mais o caráter multifatorial dos transtornos mentais. Esses quadros envolvem predisposições genéticas, experiências precoces, contextos socioculturais, padrões de vínculo e recursos simbólicos disponíveis ao sujeito. Tal perspectiva desloca o foco exclusivo do cérebro para uma compreensão ampliada do sofrimento humano, na qual o adoecimento psíquico não se esgota na disfunção de circuitos neurais, mas se manifesta, sobretudo, na dificuldade de sustentar narrativas sobre si, de regular afetos e de responder de forma criativa às exigências da vida em comum.
Nesse cenário, a clínica assume um papel ético fundamental. Ao oferecer um campo relacional estável, a psicoterapia não se limita ao alívio sintomático, mas possibilita processos de reorganização psíquica e funcional. Estudos indicam que intervenções psicoterapêuticas consistentes promovem mudanças duradouras em circuitos cerebrais associados à regulação emocional, ao autocontrole e à capacidade de mentalização (SIEGEL, 2017). O cérebro, longe de ser uma estrutura fixa, revela-se profundamente moldável à experiência relacional.
Se o caso de Phineas Gage evidencia como uma lesão neurológica pode desorganizar a personalidade, os transtornos psiquiátricos contemporâneos como a personalidade borderline mostram que o sofrimento psíquico pode emergir mesmo na ausência de alterações neurológicas estruturais. Em ambos os casos, confirma-se que mente e cérebro são inseparáveis, mas não equivalentes. A mente é mais do que o cérebro: é cérebro em relação, inscrito em uma história, atravessado pela linguagem e sustentado no laço social.
Reconhecer essa complexidade é essencial para sustentar práticas clínicas que não reduzam o sujeito ao diagnóstico, nem o sofrimento à biologia. É no encontro entre neurociência, psicanálise e experiência relacional que se constrói uma compreensão mais humana, ética e transformadora das doenças mentais.

Comentários