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Quando a dor é negociada: trauma cumulativo, defesas psíquicas e possibilidades de transformação na clínica contemporânea

  • rosangelaferreirap3
  • 19 de jan.
  • 4 min de leitura

Por Rosânggela Fêrreira


Há sujeitos que chegam à clínica não exatamente para falar da dor, mas para negociar com ela. Negociam sentidos, intensidades, narrativas. Minimizaram o impacto, reorganizaram a história, encontraram explicações racionais, espirituais ou morais para aquilo que viveram. Não raramente, atravessaram múltiplos eventos traumáticos em curto espaço de tempo, sem que houvesse continência psíquica, amparo relacional ou possibilidade de elaboração. O que se observa, então, não é uma simples resistência à análise, mas um modo de sobrevivência.

Na tradição psicanalítica, a negociação aparece frequentemente sob a forma de intelectualização, racionalização ou clivagem afetiva (Freud, 1926/1996). No entanto, quando olhamos para esses pacientes a partir da clínica do trauma, especialmente do traumas cumulativos, descrito por Ferenczi, torna-se evidente que tais defesas não se organizam apenas para evitar o desprazer, mas para impedir o colapso do self.


Ferenczi (1933/1992) nos ensina que o trauma não reside apenas no acontecimento violento, mas na experiência de desamparo radical diante dele. Quando muitos eventos traumáticos se acumulam, o psiquismo não encontra tempo nem espaço para simbolizar. A dor, então, não pode ser sentida; ela precisa ser suspensa, deslocada, anestesiada. O sujeito segue vivendo, mas à custa de uma cisão interna que o afasta de sua experiência emocional mais profunda.


Winnicott amplia essa compreensão ao afirmar que o trauma acontece quando algo ocorre na ausência de um outro suficientemente presente. Nesses casos, o self verdadeiro se retrai, e um falso self adaptativo assume a condução da vida psíquica (Winnicott, 1965/1983). A negociação constante da dor pode ser compreendida, assim, como expressão desse falso self: funcional, organizado, competente — mas profundamente desconectado da experiência emocional originária.


A Neurociência do trauma oferece hoje um diálogo fecundo com essas formulações clínicas. Estudos demonstram que experiências traumáticas repetidas, especialmente quando vividas em contexto de ameaça e desamparo, provocam alterações significativas nos circuitos neurais relacionados à regulação emocional. A hiperativação da amígdala, a inibição funcional do córtex pré-frontal medial e as alterações no hipocampo comprometem a integração entre memória, emoção e linguagem (van der Kolk, 2014).


Nesse contexto, sentir torna-se biologicamente arriscado. O corpo aprende que acessar a dor equivale a reativar estados de alarme, dissociação ou congelamento. A negociação psíquica, portanto, não é apenas simbólica; ela é também neurobiológica. Trata-se de uma adaptação do sistema nervoso para manter a homeostase possível diante do excesso.


É aqui que a noção de neuroplasticidade se torna central para a clínica. O cérebro não é um sistema fixo; ele se reorganiza continuamente a partir da experiência. Relações seguras, repetidas e previsíveis têm a capacidade de modular circuitos de ameaça e favorecer a reintegração entre emoção, corpo e narrativa (Siegel, 2012). A clínica psicanalítica, compreendida como espaço relacional vivo, pode tornar-se um ambiente neuroplasticamente reparador.


No entanto, isso exige uma mudança de posição clínica. Diante do paciente que negocia para não sentir, a tarefa do analista não é confrontar a defesa nem interpretar precocemente o trauma. Fazer isso seria repetir, em outro registro, a violência da invasão. O trabalho clínico inicia-se pela restauração da segurança psíquica, pela construção de um campo relacional onde a dor não precise ser barganhada para existir.


A presença analítica, nesse sentido, funciona como um regulador externo que, aos poucos, pode ser internalizado. Através da transferência, o paciente experimenta talvez pela primeira vez, uma relação onde não precisa proteger o outro de sua dor, nem proteger a si mesmo do colapso iminente. A dor emerge, quando emerge, de forma fragmentada: em sensações corporais difusas, em silêncios densos, em afetos breves que logo recuam. Não cabe ao analista explorar, mas sustentar.


Do ponto de vista neurobiológico, esse processo favorece a integração entre áreas subcorticais e corticais, permitindo que experiências antes registradas apenas como ameaça possam, gradualmente, ser simbolizadas. A palavra não cura o trauma sozinha; mas sem um corpo regulado e uma relação segura, a palavra sequer pode nascer.


Assim, o objetivo clínico não é reviver o trauma nem acessar toda a dor reprimida. É transformar o que foi vivido como experiência solitária e desorganizadora em algo que possa ser compartilhado, nomeado e inscrito na história do sujeito. A negociação, então, perde sua função defensiva central, não porque foi desmontada, mas porque deixou de ser necessária.


Talvez possamos dizer que a clínica do trauma no encontro entre Psicanálise e Neurociência não se ocupa de remover defesas, mas de criar condições para que o psiquismo não precise mais delas. A dor só se deixa sentir quando encontra um corpo que pode sustentá-la e um outro que não se ausenta.

Referências bibliográficas

FREUD, S. Inibições, sintomas e ansiedade (1926). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FERENCZI, S. Confusão de línguas entre os adultos e a criança (1933). In: Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

WINNICOTT, D. W. O ambiente e os processos de maturação (1965). Porto Alegre: Artmed, 1983.

VAN DER KOLK, B. O corpo guarda as marcas: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. São Paulo: Sextante, 2014.

SIEGEL, D. J. The developing mind: how relationships and the brain interact to shape who we are. New York: Guilford Press, 2012.

PERRY, B. D.; SZALAVITZ, M. O que aconteceu com você? São Paulo: Vestígio, 2021.

 
 
 

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