Entre o Corpo e a Palavra: Contribuições da Neurociência e da Psicanálise na Compreensão do Trauma
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- 15 de abr.
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Por Rosânggela Fêrreira
Resumo
O presente artigo propõe uma reflexão teórica sobre os efeitos dos traumas profundos e cumulativos na constituição psíquica e neurobiológica do indivíduo, especialmente quando vivenciados em contextos de relações abusivas e assimétricas. A partir de um diálogo interdisciplinar entre a neurociência, a psicanálise e abordagens contemporâneas do trauma, busca-se compreender como essas experiências se inscrevem no corpo e se manifestam por meio de sintomas. Discute-se o papel da Teoria Polivagal, da memória implícita e dos processos de simbolização psíquica na compreensão do sofrimento humano. Por fim, enfatiza-se a importância de uma escuta clínica ampliada, capaz de integrar corpo, emoção e linguagem no cuidado terapêutico.
Palavras-chave: trauma; neurociência; psicanálise; corpo; escuta clínica.
Abstract
This article presents a theoretical reflection on the effects of deep and cumulative trauma on the psychic and neurobiological constitution of the individual, especially when experienced in abusive and asymmetrical relationships. Through an interdisciplinary dialogue between neuroscience, psychoanalysis, and contemporary trauma approaches, it aims to understand how such experiences are embodied and expressed through symptoms. The role of the Polyvagal Theory, implicit memory, and psychic symbolization processes is discussed in understanding human suffering. Finally, the study highlights the importance of an expanded clinical listening that integrates body, emotion, and language in therapeutic care.
Keywords: trauma; neuroscience; psychoanalysis; body; clinical listening.
1. Introdução
O trauma psicológico, especialmente quando vivenciado de forma repetida e em contextos relacionais abusivos, constitui um fenômeno complexo que ultrapassa as fronteiras entre mente e corpo. Nas últimas décadas, avanços na neurociência e releituras da teoria psicanalítica têm ampliado a compreensão sobre como experiências traumáticas impactam tanto a organização neurobiológica quanto os processos de subjetivação.
Nesse contexto, torna-se fundamental articular diferentes campos do saber para compreender o sofrimento humano em sua complexidade. O presente artigo tem como objetivo discutir as interfaces entre neurociência e psicanálise na compreensão do trauma, destacando o papel do corpo como lugar de inscrição de experiências não simbolizadas e a importância da escuta clínica como dispositivo de cuidado.
2. Trauma e Neurobiologia: contribuições da neurociência
Experiências repetidas de ameaça e insegurança impactam diretamente a regulação do sistema nervoso autônomo. A Teoria Polivagal, desenvolvida por Stephen Porges, demonstra que a percepção de segurança ou perigo modula estados fisiológicos e comportamentais, levando o organismo a oscilar entre respostas de luta, fuga ou colapso.
Além disso, os traumas tendem a ser armazenados como memória implícita, manifestando-se por meio de padrões sensório-motores e emocionais. Conforme aponta Bessel van der Kolk, o corpo mantém o registro das experiências traumáticas, mesmo quando estas não são acessíveis à consciência narrativa.
Autores como Peter Levine e Gabor Maté reforçam a importância da dimensão corporal na compreensão e no tratamento do trauma, destacando a necessidade de abordagens que integrem regulação fisiológica e elaboração emocional.
3. Trauma e simbolização: contribuições da psicanálise
Do ponto de vista psicanalítico, o trauma pode ser compreendido como uma falha na capacidade de simbolização. Segundo Sigmund Freud, situações de excesso traumático impedem a ligação entre excitação psíquica e representação, resultando em repetições sintomáticas.
Sándor Ferenczi amplia essa compreensão ao enfatizar o impacto das relações traumáticas, especialmente quando marcadas por assimetria e invalidação da experiência subjetiva. Nesses contextos, o sujeito pode internalizar a lógica do agressor, gerando fragmentações psíquicas.
Já Donald Winnicott destaca que falhas ambientais precoces podem levar ao desenvolvimento de um falso self, configurando uma adaptação às demandas externas em detrimento da autenticidade subjetiva.
Na contemporaneidade, autores como Maria Rita Kehl e Christian Dunker contribuem para a compreensão das formas atuais de sofrimento psíquico, marcadas por exigências sociais, fragilidade dos vínculos e dificuldades de simbolização.
4. Integração entre corpo, mente e cultura
A articulação entre neurociência e psicanálise permite compreender o trauma como um fenômeno multidimensional, que envolve aspectos biológicos, psíquicos e sociais. O sintoma, nesse contexto, emerge como uma tentativa de expressão de experiências não elaboradas.
No cenário brasileiro, propostas como a de Adalberto Barreto destacam a importância do vínculo, da escuta e do pertencimento como dispositivos terapêuticos, ampliando a compreensão do cuidado para além do setting tradicional.
5. A escuta clínica como dispositivo de cuidado
Diante da complexidade do trauma, a clínica contemporânea é convocada a ampliar sua escuta. Mais do que interpretar conteúdos, trata-se de sustentar um espaço relacional seguro, que favoreça a regulação do sistema nervoso e a integração das experiências dissociadas.
A escuta clínica assume, assim, uma função estruturante: possibilitar ao sujeito a transição do registro da repetição para o da simbolização. Conforme Winnicott, é na presença de um ambiente suficientemente bom que o indivíduo pode desenvolver um sentido de continuidade de ser.
6. Considerações finais
O trauma, especialmente quando cumulativo e relacional, produz impactos profundos na constituição do sujeito, atravessando corpo e mente. A integração entre neurociência e psicanálise oferece ferramentas importantes para a compreensão desses fenômenos, destacando o papel do corpo como lugar de inscrição e do sintoma como linguagem.
Nesse contexto, o cuidado clínico deve se orientar não pela supressão dos sintomas, mas pela criação de condições para que o sujeito possa reintegrar suas experiências e reconstruir sentidos. A escuta clínica qualificada emerge como elemento central nesse processo, sustentando caminhos possíveis de transformação e reconexão.
Referências Bibliográficas
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